Falar ou não falar? Eis a questão!

Dia sim, outro também, estamos diante de escolhas. Das mais banais, como a roupa que vamos vestir, às mais complexas, como dizer algo que deduzimos causar, em nossos afetos, desconforto e algumas emoções que nos fazem sentir culpados. Falar algo que vai desagradar, no nosso modo generalizado de pensar, “provoca” no outro mágoa, tristeza, decepção, frustração, raiva e etc.

É fato que vivemos nos relacionando o tempo todo e, por vezes, diante da forma como o outro se comporta conosco, ou que nos comportamos com o outro, essas emoções aparecem mesmo. Entretanto, há uma diferença bem grande entre dois pontos opostos. O primeiro é nos responsabilizar pelo que o outro vai sentir (e responsabilizar o outro pelo que eu estou sentindo). E o segundo é reconhecer que tristeza, mágoa, e todas as outras emoções aí de cima são naturais, embora desagradáveis. Sim, toda emoção é natural e cumpre uma função importante. E esse é o pulo do gato para começar a vislumbrar uma melhor relação conosco e com os outros.

Eu sei. Esse é um paradigma bem diferente do que o que a nossa cultura prega. É muito comum, desde a nossa tenra idade, recebermos orientações – nem sempre explícitas – de que algumas emoções não devem ser sentidas. A minha pergunta pra você é: tem como controlar o que a gente sente?

Não tem como não sentir emoções. Optando por falar, ou por não falar, esse sentimento de culpa vai aparecer. Isso porque estamos em um conflito, numa situação assim. Há uma parte de nós que reconhece que na realidade da vida adulta, é necessário sim expor as nossas percepções, demonstrar que o outro está ultrapassando o limite do respeito, ou está nos destratando… enfim, precisamos nos posicionar. Ao mesmo tempo, há outra parte de nós segue outra regra: não posso incomodar (para não perder o amor do outro por mim).

É na nossa fase mais remota em que começamos a perceber que todas as vezes que agimos de forma contrária ao que os adultos esperam de nós, recebemos um tipo de castigo ou punição. Pode ser uma bronca ou esse outro passar a nos ignorar, não interagir conosco. Então, na nossa mente infante, uma bronca significa “diminuição do amor” e não “correção”, como deveria ser. Segundo essa lógica infantil, nós teríamos a capacidade de gerenciar o afeto do outro por nós através do nosso comportamento. A grande questão é que adentramos a vida adulta, por vezes, sem atualizar esse modo de pensar.

Como todos nós, em última instância, queremos ser amados, valorizados, reconhecidos, admirados, respeitados e vários outros “ados”, podemos optar pelo comportamento mais “adequado” e menos autêntico e alinhado com quem somos nós de verdade. Tentamos calar essa parte que quer dizer ao outro: “Olha, para por aí, você está ultrapassando o limite do bom senso ou da boa educação e, com isso, nossa relação está sendo colocada em risco. Não dá pra tolerar tudo.”

Para sair dessa sinuca de bico, o primeiro passo é reconhecer que a culpa que você está sentindo (se falar e também se não falar) tem uma função. Ela quer que você reveja os seus princípios e crenças infantis. Segundo: o conflito que você tenha com alguém, seja ele qual for, só terá chance de ser resolvido se for explicitado.

Em outras palavras, se quisermos melhorar as nossas relações, precisamos sim dizer. E podemos dizer com amor. Vamos observar esse raciocínio: o amor é o sentimento que nos mantém em um relacionamento sadio. Se eu deixo de falar, o sentimento que passa a tomar conta dessa relação é a culpa. É ela que passa a dominar e a perpetuar esse conflito entre dizer ou não. Ela suprime o amor, o abafa. E aí sim, desconsiderado, o amor estará em risco.

É comum surpreender-se com esse pensamento. Mas essa é a lógica da vida adulta, que é muito diferente da nossa lógica infantil. Pode não ser nada fácil atualizar essa regra referente ao “Não posso incomodar, desagradar” para algo mais ou menos do tipo: “Eu devo sim, expressar, e posso fazer isso com amor, quando estou me sentindo incomodada, pois só assim haverá a possibilidade de preservar esse sentimento e a minha relação com o outro.”

Há um erro muito grande em pensar que o amor tudo suporta, tudo tolera. Amor não dá conta de todo o conjunto de comportamentos que precisam estar presentes em uma relação. Não é responsabilidade do amor o respeito para com o outro. O respeito é responsável por si mesmo. O comprometimento idem. E o amor só sabe amar. Creia, querido leitor. Amor é isso mesmo! Não é produzido, muito menos controlado, ele é um sentimento espontâneo, proveniente da nossa capacidade de sentir afeto. Se controlado fosse, ninguém mais sofreria pelo término, pela ausência alheia. Era só falar com o amor: “Para de amar. O outro foi embora.”. Eita bichinho sem rédea!

O outro vai me amar ou não. Essa realidade costuma ser bem difícil de aceitar. Eu vou amar ou não, também. O outro pode fazer de tudo para que gostemos dele, e isso não gera em nós amor. Pelo contrário! Quando alguém insiste em querer controlar o que eu sinto, a repulsa aparece. Pense aí numa pessoa pedindo: “Pelo amor de Deus, me ame!”. Embrulhou o estômago ou algo parecido? Pois é.

Muitos de nós passa uma vida tentando ajustar-se às expectativas alheias para não lidar com um fato óbvio, porém nem sempre percebido: não administramos o mundo interno do outro, tampouco seus sentimentos. Quem sabe você comece a perceber que entre tentar controlar algo incontrolável no outro e aprender a compreender e acolher as suas emoções, esse segundo caminho parece ser o único real, possível e necessário para uma vida mais feliz.

 

Bruna Salis

Como Terapeuta e Trainer em PNL - Programação Neurolinguística, eu acredito ser possível auxiliar as pessoas a encontrarem em si mesmas os recursos internos para uma vida mais leve e feliz.

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