Vida de mulher

O despertador é implacável: 06h da manhã. Hora de levantar.

Levanta e entra embaixo do chuveiro para acordar enquanto a água cai sobre o corpo. Termina o banho e vem o dilema: elegância, num salto 12? Ou conforto, num jeans surrado e sapatilha para atravessar o dia que promete ser longo? Opta pelo jeans com o salto 12. Olha no espelho e no relógio. No máximo vai dar tempo de um corretivo para esconder as olheiras crônicas, resultado de muitas noites mal dormidas.

Corre pra cozinha pra preparar o lanche das crianças, olha no relógio de novo e se dá conta de que não vai dar tempo de tomar café. Visualiza a fruteira praticamente vazia (“Nossa, não consegui fazer supermercado ontem!” ela pensa) e vê uma última maçã. Fica feliz, embora culpada por só ter essa maça, pois será seu café da manhã enquanto dirige para o trabalho.

Acorda as crianças. Sim, a velha luta de todo dia: “Só mais 05 minutos, mãe!”. Olha no relógio de novo. Talvez se pegar um atalho no trânsito dê pra compensar esses 05 minutinhos a mais. “Tadinhos”, ela pensa. Se dá conta que o marido ainda não despertou e lembra, no lugar dele, que ele tem uma reunião importante. Acorda o marido que diz, raivoso: “Por que não me acordou antes? Estou atrasado!”. Engole a seco e vai pela segunda vez acordar as crianças.

Ok, crianças despertas, arrumadas, alimentadas. Pega chave do carro, bolsa, filha, filho, mochilas, lancheiras. Olha pra fora e vê que pode chover. Pede para as crianças ficarem estáticas enquanto busca o casaco delas no armário. Volta pra porta de saída e vê que elas não obedeceram. Estão brincando com o cachorro lá fora. Chama as crianças, checa se elas não se sujaram, pega tudo novamente e se prepara pra sair.

O marido passa apressado por ela e pega a maçã que seria seu café da manhã. Respira fundo, coloca as crianças no carro. Acelera pra elas não chegarem atrasadas. Enquanto dirige, sonha com um pão quente com manteiga e uma xícara de café fumegante. Deixa as crianças na escola.

Dirige rapidamente para o trabalho e percebe que passou 15 minutos do seu horário de entrada. Dá bom dia ao chefe que responde com um sonoro e insatisfeito “boa noite, você quer dizer, né?”. Passa a manhã inteira correndo atrás de prazos, documentos, relatórios, e-mails, ligações. Café da manhã? Não deu! Sorte que tinha uma barrinha de cereais salvadora na gaveta do escritório.

Faltando 10 minutos para o seu horário de almoço, o chefe convoca para uma reunião “urgente” de avaliação de resultados. Era uma vez um prato de arroz com feijão… Sai da sala do chefe às 14h, arrasada. Seu desempenho foi avaliado como aquém do que deveria ser. Liga pro delivery de pizza, come na mesa do trabalho mesmo. Sente-se culpada por comer a pizza. Deveria ter ligado para o delivery de saladas. Passa a tarde acelerando ainda mais pra tentar ter uma avaliação de desempenho melhor.

18h. Hora de ir pra casa? Não! Precisa ir pra academia. A barriguinha saliente, o culote, as celulites… tudo a incomoda muito. E tem medo de perder o marido para uma novinha. Seria uma tragédia ser trocada por outra melhor que ela! Hastag #OdeioAMarinaRuiBarbosa . Vai pra academia e dá graças a Deus por encontrar uma amiga com uma banana extra. Treina e corre pra casa. Ainda tem o jantar pra fazer, o dever de casa das crianças…

Peraí! Crianças?!?!?! Será que o marido as buscou no colégio? Se deu conta que não passou whatsapp a tarde pra ele, para lembrá-lo desse compromisso (é dever dela lembrá-lo do dever dele). Sente-se a pior mãe e a pior esposa do mundo. Chega um whats do marido perguntando se ela vai demorar, pois ele e as crianças estão com fome. Um suspiro de alívio por ele estar com as crianças e mais uma busca no waze pelo caminho mais rápido.

Chega em casa e o jantar vai ser lasanha congelada. As crianças amam. O marido diz que não aguenta mais comer lasanha congelada. Ela olha pra ele com uma cara de: você acha que eu aguento? Ele não entende. Deixa pra lá. Banho nas crianças, louça lavada, roupa na lavadora. Ela só pensa em tomar um banho e cair na cama.

Toma banho, cai na cama e o marido chega todo meloso, praticamente se encaixando nela. Ela diz: “Hoje não, estou muito cansada.” Ele responde: “Você está sempre cansada! Aposto que tá de TPM!”. Olha pra ele com mágoa no olhar, pois não está de TPM. Não perdeu o controle nem gritou uma vez sequer no dia. Tentou ser o mais cordata e resiliente possível. Se estivesse de TPM já estaria rodando a baiana com ele agora. Ele não a entende mesmo. Melhor virar para o lado e não discutir.

Fecha os olhos. Tenta dormir. O marido já ronca ao lado. Ela não consegue. Pega o travesseiro, o livro, o celular e vai pra sala. Um lapso de lucidez a faz pensar que talvez esteja sobrecarregada e que precisaria de ajuda. Interrompe o pensamento, se sentindo culpada por pensar nessa possibilidade. “Vou dar conta”, ela diz a si mesma. Adormece vencida pelo cansaço, por volta da 01h da manhã. No dia seguinte com o livro caído ao lado, o despertador do celular, implacável, toca: 06h da manhã. Hora de levantar.

Atire a primeira pedra a mulher que não se identificou com pelo menos uma ou mais partes da rotina dessa mulher aí de cima. Não é fácil mesmo! Muitas podem ter lido e pensado: “É exatamente assim! Os homens não reconhecem nosso esforço, os filhos não colaboram, o chefe é grosseiro…” O pensamento é de fato procedente. Uma rotina dessas é extenuante! Só mesmo uma super mulher para dar conta.

Aí é que está a questão. Muitas de nós mulheres fomos educadas para sermos super mulheres. Temos que dar conta de tudo, sem reclamar, e sozinhas. Temos que ser boas (quando não as melhores) em cada um dos papéis conflitantes que desempenhamos. Queremos reconhecimento e valorização pelo nosso esforço. Recebemos críticas e cobranças pelo que fazemos. Tentamos nos esforçar mais. Em vão! Não conseguimos e nos sentimos culpadas por não conseguir. Tentamos reduzir a cobrança e relaxar um pouco mais na execução desses papéis. Também em vão! Nos sentimos culpadas por não estarmos desempenhando, como deveríamos.

Oh céus! Quem poderá nos defender? Chapolin Colorado? “Acooorda, menina!”, diria a Ana Maria Braga. A infância já passou, embora a maioria de nós não tenha percebido e continuamos vivendo sob a perspectiva das super heroínas do mundo infantil. Temos orgulho de sustentar o título de “Mulher maravilha”.

Voltando à dúvida, eu te respondo quem vai poder nos defender: Nós mesmas! É preciso repensar e mudar as estratégias para lidar com esses papéis que desempenhamos. Só assim obteremos novos resultados, alinhados a uma qualidade de vida. O processo da aceitação passa por reaprendermos estratégias para lidarmos conosco mesmas (auto amor), com os nossos posicionamentos (auto expressão), com as nossas relações afetivas, familiares e com o desempenho profissional.

O primeiro passo consiste em reconhecermos o quanto somos participativas nessa desordem de que tanto reclamamos. Você pode estar pensando: “Bruna, como assim? Faço de tudo pra melhorar isso e você vem me dizer que eu estou colaborando para que essa situação se mantenha?” Sim, querida leitora! Nós colaboramos para a perpetuação dos conflitos, pois não sabemos lidar bem conosco mesmas. É muito comum, em várias circunstâncias, valorizarmos mais o amor do outro do que o nosso auto amor. É comum também não sabermos nos posicionar e nos relacionar de forma eficaz.

Precisamos reaprender uma série de coisas! A posição de “vítimas de um mundo que não nos trata como merecemos” não nos confere a autonomia necessária para as mudanças que precisam ser feitas. Resgatar a nossa autonomia frente aos desafios que enfrentamos é o caminho que nos direcionará para a nossa autenticidade e para a resolução de conflitos que estão na base de todo esse processo. Saber como esses conflitos se estruturam e descobrir novas estratégias para lidar com tudo isso é possível. Ou melhor: é necessário e urgente.

Bruna Salis

Como Terapeuta e Trainer em PNL - Programação Neurolinguística, eu acredito ser possível auxiliar as pessoas a encontrarem em si mesmas os recursos internos para uma vida mais leve e feliz.

Clique aqui para deixar um comentário abaixo

Deixe a sua resposta: